Como a ciência de dados fez do Liverpool o melhor time de futebol do mundo.

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Liverpool é o atual campeão mundial e europeu de futebol. O clube está prestes a acabar um hiato de 30 anos sem vencer o campeonato inglês – possivelmente com a melhor campanha da história da liga. Há menos de uma década, a tradicional equipe era coadjuvante até mesmo dentro do Reino Unido. Hoje, é o time que apresenta o melhor futebol voltado a resultados do planeta.

O segredo da ascensão dos reds está em seu departamento de análise de dados. Atualmente, todas as decisões tomadas no clube – seja dentro de campo ou nos bastidores – passam pelo estudo da área comandada por Ian Graham, diretor de pesquisa do clube. Foi ele, por exemplo, quem autorizou a chegada do técnico Jurgen Klopp, considerado por unanimidade um dos melhores do mundo, mas que estava em baixa em 2015, quando foi contratado junto ao Borussia Dortmund, da Alemanha.

O Liverpool foi fundado em 1892 e está inserido em um mercado bastante tradicional, que é o do futebol. Em um dos períodos mais difíceis de sua história, conseguiu se transformar por meio da tecnologia e tornou-se referência global.

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Dados no esporte

Alguns esportes coletivos, especialmente os norte-americanos, têm maior tradição em utilizar dados para tomada de decisão do que o futebol. Um caso famoso é o do beisebol, que foi inclusive retratado no filme Moneyball – O Homem Que Mudou o Jogo. O longa retrata a história real de Billy Beane, o diretor geral da equipe Oakland Athletics, que em 2001 apostou nas estatísticas apresentadas por Peter Brand, estudante de economia da Universidade de Yale, para contratar jogadores.

O time de Oakland contava com um dos orçamentos mais restritos da liga de beisebol e, mesmo assim, se classificou para a pós-temporada. A equipe era formada em geral por jogadores baratos, que eram considerados jogadores apenas razoáveis pela mídia e olheiros, mas apresentavam estatísticas necessárias para vencer partidas. A partir daquela temporada, todas as equipes do beisebol norte-americano começaram a tomar decisões baseadas em dados.

O futebol, no entanto, tem particularidades que dificultam a análise dos dados. Em primeiro lugar, o jogo em si é muito mais fluido que o beisebol, sem ciclos repetitivos (como o lançamento da bola ao rebatedor). Além disso, o campeonato inglês de futebol tem uma média de menos de três gols por jogo, enquanto um esporte como o basquete, por exemplo, chega a ter 200 pontos em uma mesma partida.

Neste sentido, a amostra de gols é muito menor e, por outro lado, a aleatoriedade é muito maior. São inúmeros casos de times que apresentam o dobro de posse de bola e chutes ao gol do que o adversário – estatísticas relevantes para o jogo – mas saem de campo com a derrota. Assim, a resistência ao uso de dados no esporte foi bem maior e, por muitos anos, gols marcados e assistências eram as únicas estatísticas relevantes sobre um atleta.

Porém, com a evolução das tecnologias de ciência de dados, tornou-se possível levantar mais informações sobre os jogos e cruzar estes dados automaticamente. Analistas de desempenho de futebol começaram a estudar situações de jogo e definir quais têm maior chance de terminar em gol.

Hoje, por exemplo, é possível medir, em números, a capacidade de um meio-campista de levar a bola até um espaço mais vazio do campo. Ou, ainda, a porcentagem de vezes que um atleta consegue pressionar o adversário a perder a posse de bola.

A transformação do Liverpool

Praticamente todos os clubes do mundo têm departamentos de análise de desempenho e aplicam os estudos dos dados em seus modelos de jogo. No entanto, o Liverpool é uma referência por modelos complexos baseados em dados que influenciam em quase todos os departamentos do time inglês.

Ian Graham é doutor em física teórica. Segundo o site do Liverpool, o diretor de pesquisa “acredita na avaliação de jogadores e tendências mais amplas no esporte, analisando números sofisticados sob a superfície”. Neste sentido, Graham elaborou o conceito de “domínio de campo”, que agrega diversas estatísticas coletadas no monitoramento de partidas.

Segundo o conceito, é possível definir quais áreas do campo de futebol, dependendo do posicionamento da equipe no momento, apresenta maior chance de um jogador do Liverpool alcançar antes do adversário. São nessas regiões que os atletas da equipe devem procurar passar a bola, de forma a não perder a posse. Caso os jogadores se movimentem errado, o mapa digital de domínio de campo vai ficar mais reduzido – e a probabilidade de fazer um gol dentro dos próximos 15 segundos diminui. Com essas informações, o técnico Jurgen Klopp consegue corrigir erros de posicionamento nos treinos.

Fora do gramado, o departamento comandado por Graham é responsável, entre outras tarefas, por avaliar jogadores e staff do mundo inteiro a fim de encontrar possíveis contratações para o clube. O meio-campista guineano Naby Keitá é um dos exemplos. Durante cinco anos, Graham analisou os dados do jogador, que atuava pelo Red Bull da Áustria.

Segundo reportagem do New York Times, o cientista não trabalha com dados separados, e sim cria modelos complexos que agregam diversas estatísticas. Graham consegue avaliar a chance de uma equipe fazer gol após determinada ação. Keita se destacou aos olhos da análise do Liverpool porque, apesar de ter um alto índice de erro de passe, a chance da sua equipe fazer gol era maior quando ele era o responsável por “criar” a jogada. Isto indica que o jogador toma riscos em detrimento de passes sem objetividade.

“O que os olheiros viram quando observaram Keita era um meio-campista versátil. O que Graham viu em seu laptop foi um fenômeno”, explica o jornal norte-americano. “Keita trabalhava continuamente para mover a bola para posições mais vantajosas, algo que até um espectador atento provavelmente não notaria”. O atleta africano foi contratado para a equipe em 2018.

Análise de dados

O Liverpool conquistou a Liga dos Campeões que terminou ano passado, venceu o Mundial de Clubes em dezembro e ruma ao título inglês (por enquanto, de maneira invicta). É consenso dentro do clube que o departamento de pesquisa, liderado por Ian Graham, tem papel fundamental na retomada do clube, que ficou 13 anos sem levantar um troféu relevante para o seu tamanho.

A transformação de uma instituição de 127 anos de história é um case que serve de inspiração para todas as empresas que estão perdendo relevância no mercado em que atuam. Uma área de ciência de dados bem estruturada é essencial para apoiar todas as decisões tomadas pelos outros departamentos de uma organização.

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