Por que falar em cidades inteligentes é falar sobre privacidade de dados.

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Em 2013, a prefeitura de Nova York resolveu abrir os dados das corridas de táxi dentro da cidade. Os dados podiam ser baixados em formatos bem comuns, como planilhas (csv), de forma que qualquer inte­ressado no assunto pudes­se fazer o download e co­­meçar a testar hipóteses e tentar encontrar insights relevantes sobre a utilização de táxis na cidade. Os primeiros estudos feitos tinham como objetivo mapear as principais vias usadas, os dias e horários de pico, os tempos de deslocamento. Informações certamente úteis para quem lida com o planejamento urbano e a gestão do trânsito na cidade.

Entretanto, algum tempo depois, surgiu o primeiro estudo correlacionando os dados das corridas de táxis com as redes sociais de famosos e outros dados públicos sobre suas agendas, tudo para comprovar que era possível identificar os passageiros famosos que estavam viajando de táxi e qual o trajeto que estavam seguindo, indicando o ponto de partida e o ponto de chegada. O estudo nem era tão conclusivo assim, mas serviu de alerta para toda a questão de privacidade, que sempre vem à tona quando se discute a divulgação de dados como esses. Os testes foram feitos com pessoas famosas, mas mostrava que, no limite, poderia ser utilizado para qualquer viajante de táxi em trânsito na cidade.

O tema “dados” está no centro das discussões sobre smart cities. Quando falamos de cidades inteligentes, existem três elementos que viabilizam a sua implementação:

1) IoT (internet das coisas) ­— e toda a infraestrutura e os hardwares envolvidos;

2) a coleta de dados destes equipamentos;

3) algoritmos que vão tomar decisões — seja baseados em regras, seja com inteligência artificial.

Há desafios relacionados a tecnologia, investimentos, planejamento urbano e regulamentação. Mas há um talvez maior do que estes, que é a governança. E a discussão sobre governança começa na definição do “smart”. O que significa smart? Qual o benefício que a inteligência pode trazer? Na maioria das vezes, o benefício esperado é atingido pela otimização dos recursos. Seria então smart city um sinônimo de “cidade otimizada”? Mas se o resultado está apenas na otimização dos recursos, ficamos restritos ao tema da eficiência. E o “smart” deve ir além da eficiência, melhorando também a experiência do cidadão.

Estas questões são relevantes porque, a partir do momento em que os dados começam a ser coletados, há uma grande responsabilidade associada.

Quem lida com dados sabe quão valiosos eles são. Por isso, inclusive, muitos os chamam de o novo ouro. A analogia é boa e podemos olhar para os dados como se fossem ouro em pó. Se não for bem cuidado, o vento leva e ele rapidamente deixa de ter valor. Para que os dados tenham valor, é fundamental que se façam as perguntas certas. Para que eles possam ser organizados de forma a responder estas perguntas. E para que as perguntas corretas sejam feitas, a chave é definir precisamente os problemas a serem resolvidos ou, como dizemos num jargão mais técnico, as “dores” dos usuários que serão enfrentadas.

Mas estamos falando de cidades, e não de empresas. Em empresas, os limites são mais bem definidos, há um controle maior sobre a área de atuação. No caso de uma cidade, há questões mais básicas a serem levadas em consideração, ligadas a valores, costumes, ética. Por esse motivo, a governança dos projetos de smart cities não pode estar restrita ao aspecto técnico. Há questões filosóficas mais amplas por trás. A gestão das smart cities deverá transcender o tema da tecnologia, dado o seu impacto profundo na sociedade.

*Guilherme Horn é digital Innovation Partner da Accenture

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